ANÁLISES GENÉTICAS

imagem

O conhecimento da diversidade genética é uma ferramenta importante para a definição de estratégias adequadas de proteção e manejo das diferentes populações de cetáceos, uma vez que a variação genética fornece o material básico para a seleção natural e, portanto, para a evolução de todas as espécies. O acesso a estas informações é uma das ações prioritárias recomendadas pelo Plano de Ação de Mamíferos Aquáticos do Brasil. A aplicação da genética molecular em estudos de cetáceos tem fornecido respostas às questões de biologia e comportamento de várias espécies. Através de estudos genéticos, informações sobre distribuição, proporção sexual e relações de parentesco de uma população podem ser investigadas. Uma outra vantagem das análises genéticas é a possibilidade de se conseguir através de pequenas amostras de pele, de sangue ou de pêlo a quantidade de DNA necessário para o estudo. Para isto são usados diversos marcadores moleculares, entre os quais os mais utilizados são o DNA mitocondrial e o DNA microssatélite.

foto O DNA mitocondrial é uma molécula de DNA circular encontrada nas mitocôndrias das células, que possui características que a tornam excelente para a construção das relações filogenéticas e para a análise dos padrões de distribuição e variabilidade genética de populações, subpopulações ou espécies. Estas características são principalmente as elevadas taxas de mutação, a transmissão somente pelas fêmeas e a ausência de recombinação genética.

A determinação do sexo dos indivíduos e da proporção sexual em populações de cetáceos também proporciona informações sobre seu comportamento e estrutura social essenciais para a conservação e manejo. A determinação do sexo em cetáceos na natureza, entretanto, costuma ser complicada, já que em muitas espécies o dimorfismo sexual está limitado ao tamanho e peso do corpo e localização das regiões genital e anal. Nas jubartes as fêmeas exibem outra característica sexual secundária, que consiste na presença de um lobo hemisférico na porção posterior da região genital, mas que só pode ser observada em animais encalhados, através de imagens submarinas ou quando a baleia expõe a nadadeira caudal acima da superfície da água. A análise de regiões sexo-específicas do DNA (genes dos cromossomos X e Y) constitui, então, uma alternativa eficiente para a obtenção destas informações.

Os microssatélites nucleares são seqüências compostas de dois a seis nucleotídeos (unidades formadoras do DNA) repetidas em série, inseridas no DNA nuclear. Amplamente usados como marcadores genéticos, apresentam uma taxa de mutação mais alta do que o resto do genoma, além de serem transmitidos por machos e fêmeas para seus descendentes. Por este motivo, se destacam nos estudos genéticos de populações, fornecendo informações sobre sua diversidade genética, sendo relevantes para embasar propostas de conservação de espécies e ecossistemas e para investigar processos genéticos como fluxo gênico. Os microssatélites são polimórficos, isto é, o mesmo loco pode ter vários alelos, cada com diferentes números de repetições, sendo assim muito utilizados para diferenciar indivíduos e para análises de paternidade. Os microssatélites são particularmente eficientes na definição da identidade das populações das diferentes espécies de baleias.

Para coleta de biópsia é utilizada balestra com flecha especialmente adaptada para não ferir o animal.

foto O intercâmbio genético entre as populações de baleias jubarte do Pacífico Norte, do Atlântico Norte e do Hemisfério Sul é limitado por barreiras físicas ou pela oposição sazonal de seu ciclo migratório. Neste segundo caso, significa dizer que enquanto as baleias jubarte do norte estão em águas tropicais, as suas coespecíficas do sul estão em águas polares, e seis meses mais tarde a situação se inverte.

A estrutura genética das populações de baleias jubarte é complexa, refletindo as migrações de longa distância entre as áreas de alimentação e as áreas de reprodução. Para responder questões relativas à estrutura e variabilidade genética da espécie que se reproduz em águas brasileiras, são realizados estudos a partir de material biológico (biópsias) obtido predominantemente de julho a novembro, durante os cruzeiros de pesquisa. Sempre que possível, obtém-se amostras de pele e gordura também das baleias mortas encontradas encalhadas nas praias.

Para coleta de biópsia é utilizada balestra com flecha especialmente adaptada para não ferir o animal.
O comportamento da baleia determina a natureza da aproximação

Análises genéticas do DNA mitocondrial realizadas pelo IBJ revelaram alta diversidade, semelhante à descrita para outras áreas de reprodução estudadas no Hemisfério Sul e no Atlântico Norte. Isto parece indicar que a caça comercial não afetou a diversidade devido ao curto espaço de tempo, em gerações, no qual essa população sofreu intensa captura, restando um número de indivíduos suficiente para manter a variabilidade necessária para sua recuperação. Além disso, a alta variação do DNA mitocondrial de todas as populações de baleias jubarte do hemisfério sul deve ser causada também por um pequeno mas constante fluxo gênico entre elas.

foto Comparações entre o DNA mitocondrial das baleias jubarte de Abrolhos e das que freqüentam a Península Antártica foram realizadas para verificar se correspondem à mesma população. As diferenças encontradas demonstraram que essas áreas não constituem o local de alimentação das baleias jubarte de Abrolhos.

A proporção de machos e fêmeas nesta população apresentou uma pequena predominância de machos, similar ao observado em outras áreas de reprodução.

rodape