


A distribuição dos mamíferos pode variar segundo inúmeros fatores ambientais (bióticos e abióticos), inclusive devido a atividades humanas, e só a amostragem contínua ao longo dos ciclos anuais de uma espécie pode registrar estas mudanças. Os levantamentos aéreos são considerados a metodologia ideal para estudos de distribuição e abundância e podem ser utilizados para estudar várias espécies. Esta metodologia, além de responder questões básicas, permite amostrar uma grande área em pouco tempo. É uma metodologia de fácil aplicação, podendo ser adotada no estudo tanto de cetáceos como de outros organismos (no Brasil já foi aplicado para o veado e a toninha, Pontoporia blainvilei). A técnica de transecções lineares é útil para estudar as baleias-jubarte, porque elas tendem a ser distribuídas extensamente durante toda uma área grande ao longo da costa. O impacto potencial do tráfego de embarcações e do desenvolvimento crescente da região costeira reforça a importância das pesquisas para avaliar o futuro da população brasileira de baleias jubarte. Este estudo serve de exemplo de parceria de sucesso entre conservacionistas e empresas de grande porte em busca do desenvolvimento sustentável.
Em 2001 a implantação do terminal de barcaças para transporte de eucalipto Luciano Villas-Boas no município de Caravelas, no extremo sul da Bahia - onde o Instituto Baleia Jubarte possui sua sede mais antiga - criou para o IBJ uma nova demanda: garantir que o novo tráfego de barcaças na região não passasse a representar um sério risco para as populações de cetáceos que ocorrem nas adjacências das rotas de navegação. O IBAMA estabeleceu como condicionantes ambientais para as empresas de celulose que estabelecessem as rotas de navegação no sul da Bahia e no Espírito Santo nos locais de menor concentração de baleias, principalmente de fêmeas com filhotes, e o IBJ foi convidado pelas empresas para realizar os estudos de densidade de baleias na área.
Para este estudo pioneiro no Brasil foi utilizado um avião bimotor (Aerocommander) de asa fixa, janela de bolha, que percorreu transectos previamente estabelecidos desde a costa até 500 metros de profundidade, área de ocorrência das baleias-jubarte, ao longo de toda a costa dos estados da Bahia e do Espírito Santo. Os vôos foram organizados para coincidir com o pico anual de abundância da espécie na costa brasileira, entre agosto e setembro e realizados anualmente de 2001 a 2005. Registros de observação de baleias-francas, que se reproduzem no banco dos Abrolhos no mesmo período das jubartes, entre julho e novembro, foram também realizados e considerados na determinação das rotas das barcaças.
Os dados de distribuição da espécie obtidos permitiram, além de traçar rotas de navegação nas zonas de menor concentração de grandes baleias para as empresas de celulose, avaliar rotas já existentes e ter subsídios para discutir os impactos de outras que venham a ser propostas na área. A análise destes dados permitiu identificar as principais fontes de impacto antrópico no banco dos Abrolhos, estabelecendo focos prioritários de atuação a fim de garantir a conservação da espécie. Uma vez garantindo a conservação da área reprodutiva utilizada pela baleia jubarte, estamos garantindo por conseqüência a conservação de um dos maiores complexos coralíneos do Brasil e de toda a sua biodiversidade. Para a sociedade e as gerações futuras fica não só o prazer de poder desfrutar da observação desses encantadores animais em seu ambiente natural, mas também a garantia de um ecossistema saudável e equilibrado.
A partir desta base de dados preexistente e do conhecimento de que as populações de jubartes do Brasil e de outras regiões do globo experimentam um momento de recuperação e de reocupação de antigas áreas de ocorrência, surgiu uma nova pergunta: qual a importância da região costeira ao norte e ao sul da concentração reprodutiva identificada na Bahia e Espírito Santo?
Com o objetivo de investigar a abundância da espécie no litoral brasileiro no ano de 2005 e identificar novas áreas de concentração, além da continuidade dos sobrevôos nesta região, foi desenvolvido um projeto amostrando desde o Rio Grande do Norte até a divisa da Bahia com Sergipe e desde a divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro até o litoral sul de São Paulo. Foi dada especial atenção à bacia de Campos, único local onde os sobrevôos se estenderam além da batimetria de 500 metros, devido à concentração de atividades petrolíferas.
Durante os levantamentos aéreos foi possível observar grupos competitivos de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) com até 9 individuos
Somando-se o esforço regular com a amostragem da nova área, foi estabelecida uma área de estudo composta por 8 blocos em 2005. O avião voou a uma altura de 500 pés com uma velocidade constante de 90 nós. O trabalho era realizado por quatro observadores por vôo, de 07:00 às 17:00h sempre que as condições meteorológicas permitiam. Os observadores utilizavam um clinômetro e um GPS para calcular a posição das baleias em relação à aeronave. As espécies, o tamanho e a composição do grupo, assim como a presença de navios, embarcações de pesca, plataformas de petróleo e outras potenciais fontes de impacto foram sempre registradas.
Durante o levantamento aéreo de 2005, foram sobrevoadas em esforço de observação 4.398,59 milhas náuticas, resultando em 386 avistagens de baleias jubarte (628 baleias, das quais 34 eram filhotes).
Durante os levantamentos aéreos foi possível observar grupos competitivos de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) com até 9 individuos. Foram observadas baleias-jubarte em todos os estados brasileiros, com exceção de São Paulo, estabelecendo a região de Cabo Frio como o limite sul de ocorrência da espécie próximo da costa. Um importante resultado deste estudo foi a confirmação de que o banco dos Abrolhos é de fato a principal concentração reprodutiva da espécie em todo o Atlântico Sul Ocidental, pois apresentou 84% dos registros de baleias durante o levantamento. Além de Abrolhos, foram observadas as maiores densidades da espécie no litoral norte da Bahia, em Sergipe e no Rio de Janeiro. Na bacia de Campos, as baleias foram observadas quase sempre sobre a plataforma continental, entre a costa e as plataformas de petróleo. Esta distribuição está provavelmente relacionada a condições ambientais e oceanográficas – em ambientes tropicais a espécie costuma ocupar áreas rasas, com batimetria média entre 50 e 200 metros. Estes dados são preliminares e os levantamentos precisariam ser realizados por um período mínimo de três anos para confirmar sea presença das plataformas de petróleo vem exercendo algum efeito sobre a distribuição das baleias-jubarte na bacia de Campos.
Outra informação prioritária para o conhecimento da espécie e para o estabelecimento de ações de conservação de médio e longo prazo é o tamanho da população de jubartes no litoral brasileiro. Os estudos revelaram que cerca de 6500 baleias-jubarte se reproduzem em águas brasileiras e os trabalhos de conservação têm garantido à espécie em anos recentes tranqüilidade para reproduzir e amamentar seus filhotes. Talvez no futuro os brasileiros possam desfrutar da presença de um número significativo de baleias-jubarte ao longo da costa, recuperadas do trauma e da memória ancestral dos muitos anos da caça que quase extinguiu a espécie, compartilhando com outras baleias um santuário de proteção integral em águas brasileiras ou, melhor ainda, em todo o Oceano Atlântico Sul, desde as áreas de alimentação na Geórgia do Sul até seu “berçário” tropical.