Comportamentos da jubarte

O estudo do comportamento das baleias pode ser feito durante cruzeiros de pesquisa, através da gravação de seus cantos ou a partir de estações fixas, em pontos onde as baleias se aproximam do continente. Este último método de observação, chamado de ponto fixo, apresenta a vantagem de não causar interferência sobre o animal, o que ocorre nos estudos feitos a partir de embarcações. Ele é feito no ponto mais alto da Ilha de Santa Bárbara, uma das cinco ilhas que compõem o arquipélago dos Abrolhos. Ao redor do local existe uma grande concentração de baleias jubarte, principalmente entre agosto e setembro, quando ocorre o pico da temporada e muitas baleias podem ser observadas ali e ao longo da costa da Bahia e do Espírito Santo.

 

 

Tanto nas áreas de alimentação como nas de reprodução, as baleias jubarte apresentam organização social caracterizada por grupos instáveis e pequenos, com média de dois a três animais. Grandes grupos podem se formar, temporariamente, durante a colaboração para a captura de alimento ou para a competição entre machos durante a temporada reprodutiva. Em Abrolhos já foram observados grupos de até 11 animais em disputa por acasalamento.

 

A região ao redor do arquipélago de Abrolhos parece ser um local bastante apropriado para as fêmeas e suas crias: em nenhum lugar do mundo tem-se uma concentração tão grande de filhotes - quase 50% dos grupos de baleias avistados. Talvez os chapeirões e a formação coralínea típica e endêmica do Banco dos Abrolhos funcionem como uma proteção para os ventos mais frequentes vindos do sul, leste e nordeste nessa época de inverno, proporcionando a essas mães um local tranquilo para permanecerem com seus recém-nascidos.

 

Durante as observações de ponto fixo na costa baiana e os cruzeiros de pesquisa, as jubartes são avistadas realizando comportamentos como a natação (deslocamento em uma única direção), “milling” (movimentação sem uma direção definida), repouso (boiadas na superfície) e comportamento ativo, igualmente observados em outras áreas de reprodução.

Exposição caudal parada_jubarte

Exposição caudal parada

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Este comportamento é característico da população brasileira de jubartes, e ocorre muito raramente em outras áreas do mundo.

Esse estado comportamental caracteriza-se pela exposição da nadadeira caudal acima da superfície da água. A baleia posiciona-se por até 15 minutos de cabeça para baixo, somente com a cauda e, às vezes, parte do pedúnculo acima da superfície do oceano. Depois desse período, voltam à posição horizontal, normalmente permanecendo em repouso, boiadas e respirando algumas vezes em intervalos curtos para logo em seguida repetir o comportamento. Algumas baleias são observadas expondo a nadadeira caudal por até quatro dias consecutivos. Em nenhuma outra parte do mundo as jubartes permanecem nesta posição por períodos tão longos. Este comportamento permite aos pesquisadores realizar a fotoidentificação do indivíduo e aos turistas observar as baleias por mais tempo.

 

Tanto machos como fêmeas são observados realizando a exposição caudal parada. Somente os filhotes não exibem este comportamento, que pode ter mais de uma função. Pode ser, por exemplo, uma boa posição para amamentar o filhote, pois as fendas mamárias ficam mais próximas à superfície, facilitando ao filhote respirar; uma forma da fêmea evitar uma cópula, já que a abertura genital ficaria fora do alcance do macho ou, ainda, uma maneira do macho cantor ser melhor escutado pelas fêmeas, pois o som produzido a uma maior profundidade não sofre interferência do ruído das ondas na superfície.

 

A exposição caudal parada pode ainda ser somente uma maneira de velejar, como um movimento passivo, ou mesmo uma posição de descanso. Outra hipótese mais ampla seria de que a exposição da cauda sirva como um mecanismo de termorregulação – a baleia pode ganhar ou perder calor através da cauda exposta. A nadadeira caudal é altamente vascularizada e dependendo da posição do sol em relação a ela, da diferença de temperatura do ar para a água ou ainda da intensidade do vento, pode se aquecer ou se resfriar.

Batida de caudal

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As batidas de nadadeira caudal e pedúnculo e os saltos de caudal parecem constituir comportamentos mais agressivos

Para elas, parece que a realização destes comportamentos ativos servem para o desenvolvimento da musculatura, da habilidade motora e da coordenação, ou podem ser um processo de aprendizado através da brincadeira. É complicado definir a função dos eventos comportamentais que envolvem alto gasto energético, como saltos, batidas de caudal, batidas de pedúnculo, saltos de caudal. Acredita-se que sejam multifuncionais, pois dependendo do contexto social os comportamentos possuem funções diferentes.

Salto

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Em um salto total, a jubarte pode projetar mais de 2/3 de seu corpo para fora da água.

O comportamento mais impressionante destes grandes mamíferos é o salto. O primeiro de uma série normalmente é o salto total, quando todo o corpo fica visível, caindo paralelamente à superfície e produzindo uma grande espuma branca (splash). Por que elas saltam? Existem várias hipóteses para explicar este comportamento. O som provocado pelo impacto do corpo da baleia na água pode representar uma estratégia de comunicação – uma forma de chamar a atenção de outros indivíduos ou grupos - ou talvez um macho se exibindo para as fêmeas ou desafiando outros machos.

O salto também pode constituir uma forma de eliminar parasitas e cracas que ficam aderidas ao corpo da baleia, ou ainda uma oportunidade de observar o que acontece sobre a superfície. Nos grupos de fêmeas com filhote, este comportamento provavelmente possui um significado diferente: durante muitas observações normalmente é o filhote quem inicia uma série de saltos maravilhosos, logo seguidos pela mãe e algumas vezes sincronizados com ela – parece que o filhote é quem incentiva a fêmea a saltar.

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Espiar

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Uma forma de observar o que ocorre na superfície é quando a baleia expõe sua cabeça verticalmente acima da linha da água.

Este comportamento é chamado de periscópio, ou espiar (spyhop), e pode ocorrer ao lado de embarcações de turismo ou de pesquisa.

Exposição da nadadeira peitoral

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O movimento de exposição e batidas das longas nadadeiras peitorais constitui um comportamento "convidativo"

Este comportamento é mais frequentemente realizado pela fêmea do grupo.

Trios também exibem estes comportamentos; porém, na maioria das vezes, são especialmente interessantes de serem observados pelos movimentos sutis. Elas expõem as nadadeiras peitorais, a cabeça e nadam lateralmente. Apesar da cópula em baleias-jubarte nunca ter sido observada, pode-se sugerir que esta movimentação constitua um tipo de corte, para chamar a atenção.

Borrifo

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O borrifo é a respiração das baleias.  Pode chegar até 3 metros de altura

O borrifo é a respiração das baleias. Elas sobem e exalam o ar quente de seus pulmões que, ao entrar em contato com o ar mais frio, condensa formando uma nuvem de gotinhas de água, a qual nas jubartes tem formatos de balão e pode atingir até 3 metros de altura. Normalmente logo após borrifar a baleia-jubarte arqueia as costas, expondo a nadadeira dorsal, e mergulha. 

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